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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Aquele que não trabalha...

Não obstante, aquele que não trabalha,
mas crê naquele que justifica o ímpio,
a sua fé lhe é imputada como justiça.
Romanos 4:5
A Graça de Deus sempre me surpreende. Não é surpreendente que algo assim se encontra na bíblia, como diria Spurgeon[1]? Estamos tão acostumados às regras impostas pelas culturas religiosas que nos surpreendemos com uma verdade crua e simples como esta. Paulo insiste nesse ponto – a salvação pela graça – em diversos pontos de suas epístolas[2]. E muitos cristãos insistem que são o bom proceder que garantem a salvação.  Não que as boas obras sejam inúteis (1Co 15.10), mas não são elas que salvam.
As boas obras receberão galardão do pai celestial (Mt 10.41-42; Mc 9.41; Lc 6.35; 1Co 3.8; Cl 3.24), mas as obras da lei, o bem feito como justificativa própria, na presença de todos, essas recebem galardão segundo a dívida (Rm 4.4) e no mesmo momento em que fizeram tais obras (Mt 6.1; 6.2; 6.5; 6.16). Cobrar a perfeição de pessoas imperfeitas é negligenciar a própria imperfeição. João nos alerta sobre isso (1 Jo 1.8-10).
Muitas vezes tentamos criar os nossos próprios alertas. Alertas que nos separam dos outros e que nos tornam mais puros aos nossos próprios olhos enquanto tornam menos puros aos que olhamos. E isso não é cristianismo! Não podemos ser acusadores, negar nossas falhas, e atirar sobre os outros pesos que não podemos carregar – isso seria manter ativo o fermento dos fariseus.
Somos chamados para uma obra de amor, de alegria, de paz, de firmeza de ânimo, de clemência, de bondade, de fidelidade, de mansidão e de domínio próprio (Gl 5.22-23). Esse é o fruto do Espírito que habita em nós por meio da graça de Deus manifestada em Cristo e que opera nos filhos de Deus. Somos chamados a ir e pregar o evangelho a toda criatura – avisá-las de Deus mandou seu filho para nos salvar (Jo 3:16) e que ele veio para evangelizar os pobres, proclamar libertação aos cativos, restaurar vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos e apregoar o ano aceitável do Senhor (Lc 4.17-21). Façamos a boa obra da graça, e não a obra da lei.



[2] Romanos (3.24; 4.4-5; 4.16; 5.15; 5.17-18; 5.20-21; 11.6) Efésios (2.5; 2.8; 4.7) 2Ts 2.16; Tt 3:7 ;2Tm 1.9;

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O amor abundante de Deus

Porque Deus amou o mundo 
de tal maneira 
que deu o seu Filho unigênito, 
para que todo aquele que nele crê 
não pereça, mas tenha a vida eterna. 
(Jo 3:16)



Uma das maiores dificuldades dos cristãos atuais é entender essa realidade. Vejamos o texto:

Porque Deus amou o mundo. Jesus não foi dado por amor a igreja, ela nem existia. Foi a vinda do noivo que criou a noiva. Jesus veio para morrer pelos pecados do mundo: Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele (v. 17). Ora, se esse era o plano para a vinda do Filho de Deus, porque a igreja passou a tratar o mundo como se ela fosse a detentora da graça salvadora?

Operando eu, quem impedirá?

Is 43:11-13
(11)  Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há salvador.
(12)  Eu anunciei, e eu salvei, e eu o mostrei; e deus estranho não houve entre vós;                               portanto vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor.
(13)  Eu sou Deus; também de hoje em diante, eu o sou; e ninguém há que possa fazer                         escapar das minhas mãos; operando eu, quem impedirá?

Essa é a primeira etapa do que ocorre com a vinda de Cristo: A certeza da soberania de Deus. Isso implica que, uma vez que Deus opera algo, nada pode impedir que o objetivo dele se cumpra. Assim, ao juntarmos Jo 3:16 com o trecho de Isaías, podemos dizer que o objetivo da vinda precisa, necessariamente, ter sido alcançado. Retomando o ponto inicial do Blog: A fé, que é dom de Deus, nos faz crer em Cristo como filho de Deus e essa crença faz com que não pereçamos, mas com que herdemos a vida eterna. Se não fosse assim, a operação de Deus - dar seu filho - teria sido impedida por algo ou alguém.

Amou o mundo

Deus poderia ter dado Jesus por qualquer motivo, mas o fez por amor ao mundo. Note que foi por amor da igreja, dos filhos de Deus, dos que criam em Deus... foi por amor ao mundo. Em Jo 3:16 a palavra grega usada para expressar mundo é kosmos e tem um sentido de todo o mundo que conhecemos. Podemos dizer que Deus amou a criação e foi para redimir sua obra que Cristo veio. Para que a operação de criar o mundo e o homem pudesse cumpri-se conforme o plano original, não é a toa que Jesus figura como o segundo Adão (1 Co 15:45), sendo espírito vivificante. Por meio desse último Adão é que a igreja se torna noiva e tem a Cristo como cabeça. Mas não foi pela igreja que Cristo morreu.

Amar a Deus sobre todas as coisas e a teu próximo como a si mesmo.

Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22: 36-40). Ora, se o Velho Testamento, tido como dominado por uma Lei que oferecia condenações o tempo todo, pode ser resumido em Amar (a Deus, a si mesmo e ao próximo) como a igreja, que surge após a vinda do Noivo - que vem para salvar o "kosmos" - pode insistir em ser instrumento de condenação para os que não seguem suas regras? 

Não faria mais sentido que a igreja fosse como o Cabeça - que deveria ser Cristo, mas que em muitos casos é substituido por um humano desejoso de ser papa - e buscasse continuar a obra redentora? Oferecer ao mundo uma crença em Jesus e não um comportamento a ser seguido para que o outro seja aceito na comunidade. Ao perder o contato com a graça - essa obra redentora de Deus, que tirou o pecado do mundo (Jo 1:29) - a igreja se desconecta do cabeça, que é Cristo e passa a legislar em causa própria, criando dogmas e leis que buscam condenar comportamentos que ela não pode lidar.

Seria incoerente apenas condenar a igreja sem que a graça fosse aplicada. Na maioria das vezes, os atuais líderes religiosos não absorveram essa realidade espiritual e por isso não conseguem compartilhar isso. Além disso, os caminhos que a graça nos leva a percorrer são assustadores para a estrutura secular da igreja. Essa estrutura, que não será esmiuçada agora, encarcera líderes e histórias e poderiam ser consideradas cadeias invisíveis que forçam a fé dos membros por caminhos previamente estabelecidos. Esse fato, quase 500 anos após as 95 teses de Martinho Lutero, é preocupante pois parece sinalizar que o desvio da igreja que levou à reforma protestante não morreu, mas multiplicou-se por infinitas instituições que buscam representar individualmente a realidade medieval do papado. Portanto, esta reflexão breve sobre as igrejas deve ser entendida como uma reflexão que busca realinhar os caminhos das instituições com O CAMINHO, que é Cristo.

A Graça 

Como cristãos, devemos nos dedicar a moldar o carater de Cristo em nós e não impor aos outros. Cristo propagou seu evangelho sendo, vivendo, agindo muito mais do que falando, obrigando e condenando. Essa é a nossa missão: pregar a boa nova a toda a criatura. E a boa nova é que Cristo veio, tirou o pecado do mundo(Jo 1:29), nos deu a paz (Jo 14:27),  restaurou vista aos cegos, trouxe libertação aos cativos, curou os enfermos (Lc 4:18). E a graça se manifesta em que aquele que crer que Jesus veio em carne para realizar definitivamente a redenção planejada por Deus, enquanto ainda não eramos igreja.